Por Matheus Rocha

Um dos principais eventos culturais da capital mineira, o Arraial de Belo Horizonte, foi suspenso esse ano. Em nota, a Belotur informou, no dia 4 de maio, que a decisão tem como objetivo evitar grandes aglomerações e reduzir os riscos de contágio pelo novo coronavírus, como recomendam a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde.

A suspensão da tradicional competição de grupos quadrilheiros afeta não somente os setores cultural e turístico de Belo Horizonte, como também os próprios grupos e dançarinos, que se preparavam para a disputa.

A Associação Cultural e Recreativo Paixão Junina Mineira, sediada no bairro Salgado Filho, região Oeste de Belo Horizonte, é uma dessas equipes afetadas. Segundo a vice-presidente Grace Kelly, que também é uma das fundadoras do grupo, a suspensão do evento pode interferir no trabalho do grupo na comunidade.

“Temos como intuito resgatar e trabalhar a mente dos jovens moradores de comunidades carentes. Com essa pandemia, e a suspensão do Arraial, acabamos perdendo um pouco do controle sobre eles”.

Grace Kelly. Foto: arquivo pessoal.

Em nota, a Belotur informou que ainda está avaliando o cenário para uma decisão final, e que está mantendo o constante o diálogo com os grupos quadrilheiros e com a União Junina Mineira.

Já a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, informou que está em diálogo contínuo com representantes da cadeia do turismo e da cultura do estado para elaborar novas medidas emergenciais que atendam às demandas dos setores em meio à atual crise.

PAIXÃO JUNINA MINEIRA

A Associação Cultural e Recreativo Paixão Junina foi fundada em 26 de setembro de 2012, na regional Barreiro. Em 2016, o grupo se mudou para Regional Oeste, onde está sediada atualmente. Hoje, o grupo conta com 60 componentes, entre diretoria, dançarinos e equipe de apoio.

Em entrevista ao Jornal DaquiBH, a vice-presidente do grupo, Grace Kelly, falou como a equipe tem reagido à notícia da suspensão e o que têm feito para minimizar os efeitos do fim dos ensaios e encontros presenciais.

“Mesmo de longe, estamos tentando manter a união e dinâmica do grupo. Temos dançarinos geniais, com uma força incrível, que mesmo diante de qualquer dificuldade não se deixam abalar dentro do grupo.”

Já para a dançarina Ana Caroline Rosa, que faz parte do grupo desde 2013, a Paixão Junina Mineira é responsável por transformações na vida dos dançarinos.

“Antes de eu conhecer o grupo, era uma menina, digamos, sem responsabilidade com algumas coisas. Depois que entrei para o grupo, aprendi muitas coisas. Hoje não vivo sem a quadrilha. São minha segunda família.”

O ARRAIAL DE BELO HORIZONTE

Com início no ano de 1970, o Arraial de Belo Horizonte é considerado hoje um dos cinco principais destinos turísticos do Brasil durante o período de festas juninas, segundo o portal do festival.

Em 2005, o festival entrou de vez para o cenário junino nacional, ao sediar o Primeiro Festival Nacional de Quadrilhas Juninas, reunindo representantes de 10 estados brasileiros, incluindo Minas Gerais.

No ano de 2017, cerca de 185 mil pessoas compareceram a pelo menos um dos eventos, distribuídos em um mês de programação, que conta com barraquinhas, feiras, festivais culinários e, claro, os tradicionais concursos de grupos quadrilheiros.

UNIÃO JUNINA MINEIRA

Principal responsável por representar os grupos quadrilheiros de Minas Gerais, a União Junina Mineira é uma entidade sem fins lucrativos, formada pelos próprios quadrilheiros. Atuando como forma de sindicato, a União atua como porta voz do movimento junino perante o poder público e a iniciativa privada.

Questionado sobre a decisão da Belotur pela suspensão do Arraial de Belo Horizonte, o presidente da União Junina, Jadison Nantes, informou que a decisão depende do controle da pandemia da Covid-19. Ouça:

Entretanto, a suspensão do tradicional concurso de quadrilhas não afasta dos quadrilheiros o espírito de São João. Segundo Jadison, a União Junina vem realizando encontros online a fim de manter o diálogo entre os grupos e ajudar aqueles dançarinos e apoios que passam por dificuldades financeiras, através da arrecadação e doação de cestas básicas.

CORONAVÍRUS IMPACTA CULTURA E TURISMO MINEIRO

Com o isolamento social, imposto em Belo Horizonte por meio de Decreto Municipal, assinado em 17 de março pelo prefeito Alexandre Kalil, diversas atividades culturais foram adiadas ou canceladas na capital mineira.

Para minimizar os danos, a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo – Secult divulgou, em nota, no último dia 7, uma lista de medidas adotadas pelo Governo de Minas.

1-  Prorrogação de 60 dias para os prazos de:

1.1 – Execução de todos os projetos de Lei de Incentivo à Cultura de Minas Gerais e do Fundo Estadual de Cultura que se encontram vigentes no prazo de publicação da referida deliberação;

1.2 – Autorização de captação dos projetos de Lei de Incentivo à Cultura de Minas Gerais que se encontram vigentes no prazo de publicação da referida deliberação;

1.3 – Entrega de prestações de contas de todos os projetos da Lei de Incentivo à Cultura de Minas Gerais e do Fundo Estadual de Cultura que se encontram vigentes do prazo de publicação da referida deliberação.

2-  Criação de condições de financiamento facilitadas pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) para micro e pequenas empresas de turismo.

3-  Flexibilização de prazos para pagamento de faturas de serviços de energia (Cemig) e água (Copasa), para clientes comerciais classificados como micro e pequenas empresas.

Em levantamento realizado na primeira semana de abril, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) relatou que Minas Gerais já acumulava perda de R$ 8,34 bilhões no comércio, desde a instauração do isolamento social.

Já segundo matéria divulgada pelo Jornal Estado de Minas, o setor turístico em todo Brasil sofreu 84% de queda na arrecadação em março, se comparado ao mesmo período do ano passado. O levantamento também foi realizado pela CNC.

Além dessas ações, a Secult aderiu, ainda, ao movimento nacional “Não Cancele, Remarque!”, para reforçar a importância do turismo para o estado. Criado pelo Ministério do Turismo, esse movimento visa minimizar os impactos no setores turístico e cultural.