Por Ney Soares


O bairro Buritis, no seu início, era destaque pelos seus espaços verdes e áreas chamadas permeabilizáveis
, ou seja, o bairro iniciou seu crescimento cercado de árvores, parques e córregos. Hoje, a região, ainda conta com esses adjetivos que lhe destacaram no seu início e os moradores podem usufruir não só do Parque Aggeo Pio Sobrinho, mas de vários parques que os cercam.

O microclima do bairro também é bem diferente do centro de BH. Os moradores do bairro  são constantemente surpreendidos por mudanças repentinas no clima. Isso, segundo especialistas,  ocorre devido à verticalização do bairro, que impede a troca de calor realizada pela circulação dos ventos.

Porém, o clima da região é considerado atípico, porque mesmo sendo considerado um bairro verticalizado, o Buritis ainda mantém  muitas áreas verdes conservadas. A preservação dessas áreas é algo que, para Paulo Gomide, morador do bairro Buritis, contribui não só para o clima mas para a saúde dos moradores.

O Processo de Arborização em Belo Horizonte

Belo Horizonte é coberta por vegetação composta por vários biomas típicos de Cerrado e Mata Atlântica. A cidade tem forte ligação com a natureza, mais especificamente com as árvores floríferas e frutíferas, desde a sua fundação em 1897. De acordo com a Secretaria Municipal Adjunta de Planejamento Urbano, o formato como a nova capital foi dividida consistia em três áreas: central urbana, suburbana e rural. A forma como foi planejada contribuiu para o processo de arborização.

Inspirada nos arrondissements de Paris, que, na tradução literal, significa distritos, Belo Horizonte recebeu o apelido de “Cidade Jardim”. Em alguns pontos da cidade, houve implantação de ruas e avenidas com padrões bem definidos e maiores dimensões, como, por exemplo, as avenidas Afonso Pena e do Contorno. Nesses locais, os passeios e espaços públicos foram projetados, favorecendo o plantio de árvores de maior porte, criando um formato de “cinturão verde” no seu entorno.

Ao desenhar a nova capital, o engenheiro e urbanista Aarão Reis planejou inúmeras praças e lagos no intuito de criar espaços bem definidos para a socialização da população, o que acabou não acontecendo.

A execução dos serviços não seguiu conforme o planejado e muitas destas praças não chegaram a ser implantadas ou desapareceram. Diversas alterações aconteceram no traçado urbano e várias destas áreas se transformaram em quarteirões edificáveis posteriormente.

O historiador Daniel Morais vive em Belo Horizonte há 31 anos e conta como eram os ambientes.

“Quando cheguei aqui, em 1986, aos 10 anos, vi uma cidade ainda com um perfil interiorano, com as vias públicas bastante arborizadas e com muitas áreas verdes disponíveis. Contudo, ao longo dos anos, percebi um crescimento desenfreado, especialmente na região em que moro, pois vi nascer o bairro Buritis em uma área que usávamos para recreação, com rios limpos e animais diversos. Hoje só vejo essas áreas nos parques públicos”.

 A capital mineira, na medida em que foi se desenvolvendo, acolheu muitas pessoas que vieram das cidades do interior e até de outros estados, trazendo consigo mudas de árvores de suas regiões de origem.

O objetivo era tentar reproduzir no novo local de morada parte de seus ambientes da juventude e de seus antepassados. “Na época em que Belo Horizonte estava se expandindo aconteceu a disseminação de várias espécies como a murta e a sibipiruna. Plantar mudas de outras regiões era um aspecto cultural das pessoas, o que acabou colaborando para essa enorme diversidade de espécies existentes atualmente”, informou o engenheiro florestal Edinilson dos Santos.

O especialista também destacou como os moradores ajudavam a cuidar das áreas verdes.

“Muitas casas tinham jardins frontais relativamente grandes e as árvores recebiam atenção e cuidados dos moradores, que faziam questão de regar, adubar e podar essas árvores. Há relatos de que quando uma espécie morria outra era plantada no mesmo lugar por aqueles que por ela zelavam. Muito provavelmente aquela árvore tinha um significado importante para alguém”, concluiu.

O hábito de zelar pelos jardins nas praças ainda está sendo preservado por muitos moradores. No bairro Santa Efigênia, região Centro-Sul, é possível encontrar vários colaboradores. É o que relata o jornalista Leonardo Melo.

“Eu moro aqui há 14 anos e nessa região tem moradores antigos que sempre fazem visitas rotineiras para limpar e cuidar dos jardins. Quando posso eu ajudo meus vizinhos a fazer esse trabalho”.

Estudo feito pela Secretaria de Meio Ambiente da PBH aponta que, atualmente, há cerca de 566 espécies diferentes já catalogadas, totalizando, até o momento, mais de 400 mil árvores no município. Desse total, cerca de 68% estão localizadas nas calçadas, canteiros centrais das vias, áreas remanescentes e praças. Os dados também revelam mais de 32 mil árvores frutíferas como goiabeiras, oiti, mangueira, limoeiro, pitangueira, romanzeira, jaboticabeira, amoeira, coqueiro e acerola, e 28 mil floríferas, entre elas os ipês, que colorem a cidade na primavera.

Segundo o arquiteto e gerente de projetos especiais da Prefeitura de Belo Horizonte, Júlio de Marco, ainda há muitas espécies para serem registradas e a ideia é ampliar o cadastro de dados. “Das nove Regionais de BH, somente na Leste, Noroeste, Oeste, Centro-Sul e em parte da Pampulha foram realizados os estudos. Foi uma grande surpresa para nós encontrar tantas espécies. Muito está por vir”, destacou.

Os benefícios que a arborização urbana podem trazer são os mais variados, que vão desde proporcionar sombra nos dias mais quentes, auxiliar na purificação e umidade do ar, produzir frutos, diminuir a poluição sonora, embelezar a cidade e colaborar até nos aspectos geológicos. Para o engenheiro agrônomo Pedro Mendes, que atualmente é analista de meio ambiente da Cemig, os principais ganhos das cidades com essas atitudes são a redução extrema de calor e retenção da água das chuvas, evitando as enchentes.

Entretanto, Pedro ressalta que

“apesar de contribuírem de forma significativa para a redução de algumas condições adversas que ocorrem nos meios urbanos, é preciso salientar que as árvores são parte da solução desses problemas e que o planejamento urbano e a redução da emissão de poluentes também são fundamentais para mitigar aspectos desfavoráveis da ocupação antrópica nas cidades”.

Há décadas que em Belo Horizonte não existem projetos eficientes para preservação dos biomas. Na medida em que árvores dividem espaços com edificações, calçadas, redes elétricas e vias públicas torna-se imprescindível a criação de planos de arborização sustentável. Este é o grande desafio para os setores públicos, comunidades e especialistas, que precisam se ater para formas de preservação mais específicas.

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