As diferentes sensações térmicas de uma das regiões que mais cresce em Belo Horizonte

Por Camila Felix, Gabriella Hott, Kellem Soares e Nubya Oliveira

Clima? Quente, frio, ameno.

É comum ouvir pessoas comentando sobre as condições climáticas de vários locais. Muitas, até utilizam o tema para “puxar papo” quando não há assunto. Quem nunca escutou: “nossa, está quente hoje, não é mesmo?”.

Entretanto, “a maioria das pessoas confundem os significados de ‘clima’ e ‘tempo’, diz Lizandro Gemiacki, coordenador do Quinto Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).

“O tempo se refere a um momento específico, por exemplo: o dia, hoje, está frio. Já o clima se refere à média das características do tempo em uma determinada localidade (recomenda-se ao menos 30 anos). Normalmente, é classificado de acordo com as características médias de temperatura, chuva, umidade e sazonalidade”, enfatiza Lizandro.

Em relação aos fatores que influenciam na caracterização do clima, Gemiacki destaca três elementos:

  • O primeiro deles é a altitude (quanto mais alto mais frio).
  • O segundo é a continentalidade (quanto mais longe do mar, maiores as amplitudes térmicas)
  • O terceiro é a latitude (quanto mais longe da linha do equador, menor a quantidade de energia recebida do sol).

O microclima urbano

Mas, e quando as condições climáticas de pequenos locais se diferem dos demais que os cercam? Quando, frequentemente, temos a sensação de estar em um lugar frio e, não muito distante, quando chegamos em outro, a temperatura está mais aquecida, ou vice-versa.

São particularidades que pertencem a áreas específicas, geralmente causadas pelas interações entre o homem e o meio ambiente.

“Devido à expansão urbana, são modificadas as características climáticas que eram observadas anteriormente. As grandes metrópoles sofrem intensas mudanças nas coberturas das superfícies, que podem alterar as condições climáticas locais”, esclarece Gemiacki.

​De acordo com Ruibran dos Reis, Meteorologista do Instituto Climatempo, também é preciso levar em consideração alguns fenômenos meteorológicos que atuam em grandes escalas, como as frentes frias (milhares de km de abrangência).

Outros que operam em mesoescala, como linhas de instabilidades (cerca de 100 a 200 km), e outros que chamamos de microescala, que dependem do relevo e vegetação local.

“No caso de áreas urbanas, existe pouca vegetação e muito asfalto. Essas regiões absorvem as radiações solares de ondas curtas e as transformam em calor. Portanto, o microclima urbano é mais quente e seco”, diz Ruibran.

O professor de Climatologia da UFMG, Wellington Assis, estudou o clima da região do Buritis em sua tese de doutorado, intitulada O sistema clima urbano do município de Belo Horizonte na perspectiva têmporo-espacial”.

https://youtu.be/_v-W270l9cc

A vegetação

A vegetação influencia diretamente no clima e nas temperaturas locais. Segundo o biólogo especialista em Ecologia e Conservação, Júnio Damasceno, a ação é devida às diferentes fisionomias das matas, as quais têm características específicas.

Além de fazer o papel de sombreamento, as vegetações absorvem parte da fonte luminosa e do calor solar, especialmente, na fotossíntese, e mantêm a umidade do ambiente pelo processo de evapotranspiração. Por meio disso, a umidade fica mais constante.

“Este modelo de variação na temperatura gera uma circulação do ar, mantendo o ambiente com temperaturas mais amenas (menos distantes). Ambientes não vegetados produzem maior amplitude de variação térmica e umidade, tempos menos constantes e, consequentemente, sensações de desconforto“, explica. Júnio.

Um aglomerado urbano tende a acumular calor por três motivos:

  • As construções impedem a circulação de ventos que realizam troca de calor
  • Grandes centros urbanos possuem poucas áreas verdes para manter esse processo de amenização da temperatura e umidade que a vegetação realiza naturalmente
  • Os materiais utilizados nas construções, como concreto e superfícies mais escuras e irregulares, aumentam a absorção de calor, provocando o aumento de temperatura nos grandes centros.

Outro fator que difere a zona urbana de zonas periféricas mais arborizadas é o clima mais frio e úmido, uma vez que as zonas mais afastadas são definidas pela predominância de áreas florestais.

Segundo Ruibran, toda a radiação proveniente do sol é utilizada até as seis da manhã do outro dia. Com pouca área verde, a energia que seria utilizada para causar evapotranspiração das plantas é utilizada para aquecer o solo e o ar.

Ouça o que moradores do Buritis pensam sobre o clima da região

https://youtu.be/5QGpvSUqGic

 

grafico_temperatura

A região do bairro Buritis

O Buritis, localizado na região oeste de Belo Horizonte, é um bairro  verticalizado, o que modifica os padrões de circulação do vento.

De acordo com Júnio Damasceno, “a especulação imobiliária alterou severamente a paisagem reduzindo as matas das encostas. O aumento da área de construção intensificou o potencial de acúmulo do calor. Já a pavimentação asfáltica alterou os padrões de absorção do fluxo pluvial (chuva) e, com a redução na capacidade de retenção da água no solo, as nascentes da região tiveram seus volumes reduzidos. Certamente, o bairro Buritis, hoje, não apresenta a mesma condição climática histórica que teve um dia”.

O Buritis está próximo de importantes unidades de conservação, como a Estação Ecológica do Cercadinho, o parque Aggeo Pio Sobrinho e, também, de uma vertente da extensão da Serra do Curral, o que contribui para a entrada de frentes frias e ventos que trazem chuva para a região.

Essa região também sofre com queimadas em períodos de seca, o que está relacionado ao efeito estufa, que é a capacidade de reter calor na atmosfera.​

Um dos fatores que explica o diferencial da região é localização elevada, onde a temperatura é mais amena em relação à região central da cidade.

“A altitude é o principal fator climático para a diminuição das temperaturas pela ocorrência dos ventos. Entretanto, com o aumento da urbanização do bairro, a tendência é de diminuir a circulação do ar e aumentar a temperatura”, afirma Ruibran dos Reis.

 

“Aqui parece que a gente está em outro pais. Venta muito e você não pode andar sem sombrinha e blusa de frio na bolsa porque, mesmo quando está calor, a qualquer momento pode esfriar ou chover”.

Natália Fagundes – estudante, 32 anos

 

 

“Aqui, no verão, é calor normal, só no inverno que dá uma piorada. Quando está muito frio, eu trabalho pertinho da chapa, fecho as janelas e a porta da kombi”.

​Vicente de Paulo – comerciante, 55 anos