por Mylene Alves

O Hospital Galba Velloso teve os atendimentos psiquiátricos suspensos no início do ano de 2020.  Lotado  na região oeste de Belo Horizonte, o fechamento do espaço foi condizente com as decisões que procuram melhorar os tratamentos que envolvem saúde mental. 

Em tempos de pandemia, e por consequência de seus acontecimentos, a mentalidade dos brasileiros ainda recebe uma carga maior de preocupações. Em Abril de 2021, quando o Brasil registrava 400 mil vítimas pela Covid-19, Ana de Lemos, diretora-executiva da Organização Médicos Sem Fronteiras, em entrevista à CNN, disse que, apesar do sistema de saúde brasileiro ser um exemplo, por ser público, a situação vivida no país parecia muito mais dramática que em outros lugares do mundo.

Tendo em vista, não só isso, mas também as dificuldades econômicas, o alto índice de desemprego, embates políticos, e outras notícias que bombardeiam os noticiários brasileiros, manter-se estável emocionalmente, no Brasil, acabou se tornando um grande desafio.

Miriam Abou-Yd, psicóloga, psiquiatra e ex-coordenadora de Saúde Mental em Belo Horizonte afirma que o começo da pandemia veio com um grande desafio na área de saúde mental, como: lidar com a suspensão temporária dos atendimentos sem ocasionar uma desassistência, em especial para os casos mais graves. Essa situação fez com que os serviços criassem diversas outras modalidades de atendimento, anteriormente não muito utilizadas.

Um exemplo é o atendimento virtual, que propiciou a muitas pessoas o acesso ao tratamento. Outras, infelizmente, pelo baixo poder aquisitivo ou mesmo pela limitação ao mundo digital, não conseguiram atendimento.  

FECHAMENTO DO HOSPITAL GALBA VELlOSO E A TRANSFORMAÇÃO NOS ATENDIMENTOS

Imersa nesse cenário, Belo Horizonte ainda teve que lidar com o fechamento do Hospital Galba Velloso, localizado no bairro Gameleira, região oeste da cidade. A suspensão dos atendimentos aconteceu em março de 2020, início da pandemia, e pegou muita gente de surpresa.

Miriam Abou-Yd, que também é militante do Fórum Mineiro de Saúde Mental, da Frente Mineira de Drogas e Direitos Humanos e da Rede Nacional de Internúcleos da Luta Antimanicomial, ressaltou  que o fechamento do hospital é algo positivo e deve ser visto como algo esperado, já que as políticas de saúde mental de Belo Horizonte e de Minas Gerais propõem a substituição progressiva dos hospitais psiquiátricos por serviços abertos, com uma lógica bem diferente.

Isso é possível pois Belo Horizonte, desde 1993, vem provando que seria possível uma vida em sociedade sem os suportes que usam da privação de liberdade como pressuposto terapêutico, como os manicômios e hospitais psiquiátricos, incluindo o Galba Velloso.

A média de atendimentos por lá, na década de 80, era cerca de 130 pacientes a cada 24 horas. Com o passar dos anos, esse número caiu  e, anos antes dos atendimentos serem suspensos, esses pacientes não passavam de 15 pessoas durante esse mesmo período. Para a quantidade de funcionários que estavam à disposição, e para os 120 leitos que o hospital sediava, eram poucas ocupações.

Mesmo levando esses números em consideração, o fechamento do Galba Velloso só foi possível pelo desenvolvimento de uma rede de suporte muito mais complexa e humanizada. 

Os pacientes que antes estavam no HGV e receberam permissão médica tiveram alta, já os demais foram encaminhados para o Instituto Raul Soares, que teve seu número de leitos modificado, passando de 76 para 116. Mas, a principal recomendação é recorrer à Rede de Atenção Psicossocial de BH, que tem serviços que começam com atenção primária à saúde, e contam com outros atendimentos, como os oferecidos pelos CERSAMs.

Atualmente, a estrutura física do Hospital Galba Velloso não está inutilizada. A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) explica que, atualmente, o local recebe pacientes com indicação de internações clínicas, funcionando como uma retaguarda de leitos clínicos não-covid para toda a Rede SUS do município de Belo Horizonte. 

Rangel Sales, professor universitário, que procurou por atendimentos no Hospital Galba Velloso para seu irmão na primeira quinzena do mês de março, em 2020, faz um relato ao Jornal DaquiBH. “Ele sofreu um surto psicótico agudo, por uso de bebida. Ele é alcoólatra inveterado, então nesse surto psicótico ele precisou ser atendido primeiro em uma UPA, que é o procedimento padrão para ser enviado para um atendimento público, e foi encaminhado para o hospital público, até então o Galba Velloso”.

Chegando lá, Rangel confessa ter passado por um processo  confuso, pela movimentação intensa que havia. Vivendo o início das mudanças, os funcionários tinham poucas orientações e todos os pacientes estavam sendo transferidos para o Instituto Raul Soares, o que, naquele momento, dificultou novos atendimentos. Sendo assim, a família precisou recorrer a atendimento em hospitais particulares.

OS CERSAMS

O Centro de Referência em Saúde Mental (CERSAM) acolhe pessoas que passam  por crises e urgências de saúde mental, além de acompanhamento de pessoas em sofrimento mental com quadros graves e persistentes. Uma unidade do CERSAM, segundo Miriam Abou-Yd, atende cerca de 50 a 70 pessoas por dia.

Além desses, existem os CERSAMis que acolhem casos de urgência em saúde mental e uso abusivo de drogas entre crianças e adolescentes, os CERSAMs AD, que acompanham casos de necessidades advindas do uso prejudicial de álcool e outras drogas.

Todas as unidades desses centros são territorializadas, ou seja, os pacientes são atendidos em lugares perto de sua residência, de seus familiares. Isso reduz casos como muitos encontrados no Galba Veloso, em que, conforme relato da psiquiatra Miriam, 80% de pessoas que estavam internadas eram do interior de Minas Gerais, totalmente afastadas da família e afastadas dos recursos que a convivência em comunidade podem oferecer.

Como parte do atendimento mais humanizado, os usuários são levados também ao contato com as artes. “Nós temos novos centros de convivência com artistas, tem quem ensine a dançar, pintar, bordar, os usuários fazem isso. Eles vão, tem essas atividades, e depois voltam para casa. Em muitos casos você pode até diminuir a medicação. Essa expressão através da arte é muito terapêutico também”, explica Miriam Abou-Yd.

O CERSAM da região oeste de Belo Horizonte fica localizado na Rua Oscar Trompowisky, número 1325, no Bairro Grajaú. Os telefones de contato são (31) 3277-6488 ou (31) 3277-9601.

LUTA ANTIMANICOMIAL

O hospital foi fechado porque existe um movimento social no Brasil”, afirma a militante da causa, Miriam, defendendo a transformação que pode vir através disso. “Faz parte da política nacional, estadual e municipal o fechamento de hospitais psiquiátricos e a criação de serviços que o substituem”. A luta antimanicomial é defendida por trabalhadores, familiares dos pacientes e pelos próprios pacientes.

Questionada sobre o início desse movimento social, Miriam nos contou que as primeiras denúncias começaram por volta da década de 70, quando a sociedade ainda vivia tranquilamente com a existência dos hospitais psiquiátricos. 

Algumas pessoas chegavam como pacientes naqueles locais só por se comportarem diferente do que a sociedade tinha estabelecido como “normal”. O lugar contava com pacientes que tinham demandas de saúde mental , mas outros eram levados por serem rejeitados por  suas famílias, como homossexuais, deficientes físicos e alcoólatras, o que fazia parte de uma segregação social.

Além disso, a situação encontrada nesses lugares era desumana. Relatos sobre o Hospital Colônia de Barbacena dizem que os pacientes dormiam sobre palha, já que as camas foram retiradas para que houvesse espaço para mais pessoas. 

O psiquiatra Franco Basaglia, precursor da reforma psiquiátrica na Itália, veio ao Brasil e abriu olhares para essa causa, mostrando que só humanizar os hospitais não funcionaria tanto quanto fechar esses pontos. E por isso, transformar o Hospital Galba Velloso em um lugar mais humanitário como os CERSAMs não seria uma solução.

“Em 1987, na cidade de Bauru, houve um encontro de trabalhadores, onde decidiu-se criar um movimento social, o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial e o lema ‘Por Uma Sociedade Sem Manicômios’. O hospital psiquiátrico foi constituído há séculos para poder excluir, para fazer justamente o que ele vem fazendo, e nada que a gente fizesse dentro desse espaço, que foi construído para a anular a subjetividade e impor a privação da liberdade como condição, seria suportável e tolerável do ponto de vista dos direitos humanos”, contou Miriam.

Alterar o olhar da sociedade sobre a loucura, garantir autonomia e reconhecer os usuários como cidadãos também foi um dos pontos centrais sustentados pelos movimentos da Luta Antimanicomial. Tais profissionais não são contra tratamento ou contra a medicação desses pacientes, mas sim contra oferecer apenas o remédio e privar a liberdade como um pressuposto terapêutico. 

Na época, denominaram de “Indústria da loucura” a existência de quase 100 mil leitos psiquiátricos, a maioria em hospitais privados, levando ao segundo maior gasto do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), sem qualquer regulação por parte do poder público. Enquanto os proprietários dos hospitais enriqueciam, a população brasileira era trancada, por qualquer motivo que subvertesse a ordem. 

Esse ano, no mês de agosto, houve alguns protestos da luta antimanicomial, que iam contra o pedido do Conselho Regional de Medicina, que queria interditar de 16 Centros de Referência em Saúde Mental. 

“Não é de se surpreender que o Conselho Regional de Medicina tentasse destruir ou violar a política de saúde mental de Belo Horizonte, que é a política antimanicomial mais reconhecida no Brasil e também internacionalmente. Com um discurso perigosamente corporativo, o CRMMG articulou-se com o que há de mais reacionário na Associação Brasileira de Psiquiatria e com o Governo Federal”, concluiu Miriam.

PRIMEIRO PASSO PARA RECEBER ATENDIMENTO

Aos que desejam receber atendimentos psicológicos, psiquiátricos ou outros relacionados a Rede de Atenção Psicossocial de Belo Horizonte, é recomendado que o primeiro passo seja procurar pelo serviço de saúde pública mais perto de sua residência. 

No Brasil, as cidade contam com Centros de Saúde territorializados. Assim, é importante procurar qual deles atende sua região e assim receber encaminhamento para os CERSAMS ou os demais suportes oferecidos. Acesse a lista de Centros de Saúde da regional Oeste, no site da Prefeitura de Belo Horizonte.