Por Amanda Ferreira

A população de Belo Horizonte já enfrentou cenários alarmantes devido aos altos números de casos de dengue registrados desde a década de 90.

Historicamente, os anos com maior registro foram 1998 (86.698 casos), 2010 (50.022 casos), 2013 (96.113 casos), 2016 (154.513 casos) e 2019 (116.458 casos), segundo dados divulgados pela PBH (Prefeitura de Belo Horizonte).

Em contrapartida, em 2020, mesmo diante da pandemia da COVID-19, houve uma redução expressiva nestes números. Foram 4.751 casos confirmados. Mas, a que se deve este fato?

A Coordenadora Estadual de Vigilância das Arboviroses, Rejane Balmant, explica que a diminuição observada no número de casos de dengue pode ser atribuída a vários fatores.

‘’O próprio ciclo dessa doença, que se eleva a cada dois anos, a pandemia da COVID-19, que gerou menor circulação das pessoas e, com isso, dos vírus que elas transportam, e o receio da população em procurar assistência nas UBS (Unidades Básicas de Saúde) no contexto de elevação de casos de COVID-19, gerando assim, um menor número de notificações,’’ aponta.

Neste ano, até o dia 26 de fevereiro, a Secretaria Municipal de Saúde detectou a existência de 238 casos de dengue em Belo Horizonte. Na Região Oeste, apenas 8 casos foram confirmados.

A evolução dos casos de dengue em toda a capital mineira desde 2010. Gráfico: Eller Zant.

A evolução de casos de dengue, desde 2010, apenas na região oeste de Belo Horizonte. Gráfico: Eller Zant

COMO FUNCIONA ESSE LEVANTAMENTO DE DADOS 

A cada atendimento em que é detectada a suspeita de dengue, é gerada uma ficha de notificação, que abastece um banco de dados, denominado SINAM (Sistema Nacional de Atendimento Médico). Baseado nisso, há o registro e o acompanhamento.

‘’No início do processo, esses casos entram como casos suspeitos, após a confirmação, há a mudança de casos para confirmados ou descartados. Isso é feito com acompanhamento do serviço de epidemiologia do município. Os óbitos seguem a mesma lógica,’’ explica Eduardo Viana, diretor de zoonoses de Belo Horizonte.

A ANÁLISE DOS CASOS 

Desde 2014, o Brasil passou a utilizar uma classificação em que a doença pela dengue é tratada como única, sistêmica e dinâmica. Isto significa que a ideia de “dengue clássica” e “dengue hemorrágica” não existe mais.

A doença pode tanto ser pouco sintomática ou muito sintomática, ou ainda evoluir de uma forma menos grave ou mais grave. É o que explica a médica epidemiologista e infectologista, Luana Araujo, autora do   – Blog que esclarece os mitos e as verdades sobre as doenças infecciosas e a saúde pública.

Com o surgimento da pandemia do novo coronavírus, em 2020, os sintomas podem se confundir, por isso, a população precisa ficar atenta.

‘’Embora a dengue costume fazer febre mais alta que a COVID-19, bem como sangramentos, em sua forma grave, ambas levam à dor muscular, moleza, cansaço, manchas pelo corpo, e até mesmo às alterações de paladar e olfato. Por isso, além de um detalhado exame físico e laboratorial, é preciso investigar a história clínica do paciente para que o diagnóstico seja o mais preciso possível,’’ explica a doutora.

O COMBATE AO AEDES AEGYPT EM TEMPOS DE PANDEMIA 

A PBH aceitou o desafio do Ministério da Saúde em buscar alternativas, dentro da nova rotina, para redução do número de casos da dengue, chikungunya e zika.

Algumas atividades complementares estão sendo realizadas, como o monitoramento aéreo, por meio de drones que auxiliam na busca por focos de mosquito em residências e imóveis, e o apoio de diversos órgãos, como a (Superintendência de Limpeza Urbana), que auxilia na retirada de materiais inservíveis para evitar novos criadouro do mosquito.

Além disso, denúncias podem ser realizadas através do aplicativo PBH App ou no portal de serviços da prefeitura, que consiste na solicitação de verificação de situações de risco que qualquer cidadão pode identificar pela cidade.

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, o envio de agentes de campo para apoiar municípios tem sido realizado tomando todos os cuidados de proteção e higiene em relação à COVID-19.

Mosquito Aedes Aegypti, responsável pela transmissão da dengue. Foto: Acervo Fiocruz Imagens. Autores: Rodrigo Méxas e Raquel Portugal.

MUDANÇAS NO MÉTODO DE COMBATE À DENGUE

O Método Wolbachia, é uma das novas técnicas em fase de implantação no município de Belo Horizonte. Essa, é uma iniciativa internacional, conduzida no Brasil pela FIOCRUZ, com eficácia comprovada.

‘’A Wolbachia é um microrganismo intracelular presente em 60% dos insetos da natureza, mas que não estava presente no Aedes Aegypti. Quando presente no mosquito, a Wolbachia impede que os vírus da dengue, zika, chikungunya e febre amarela se desenvolvam, contribuindo, assim, na redução destas doenças,’’ explica Rejane Balmant.

O Método Wolbachia consiste na liberação do Aedes Aegypti para que se reproduzam e seja estabelecida uma nova população destes mosquitos, todos com Wolbachia. Esse processo não envolve modificação genética e já apresenta resultados positivos.

No Brasil, os dados mais recentes indicam redução de até 77% nos casos de dengue e de cerca de 60% dos casos de chikungunya em áreas onde foram liberados Aedes aegypti com Wolbachia.

A estratégia, que já está na segunda fase, teve uma primeira fase em 3 áreas de abrangência nos centros de saúde da regional Venda Nova.

A segunda fase foi iniciada dia 19 de janeiro, e consistiu na liberação dos mosquitos nas regionais Norte e Noroeste do município.