Agricultores familiares de produtos orgânicos buscam novas maneiras de alicerçar o negócio. Além disso, veja a opinião de uma nutricionista sobre o assunto e aprenda a fazer sua própria horta orgânica

Por William Araújo

O comércio de alimentos orgânicos no Brasil está em expansão há alguns anos e o reforço das formas de distribuição e comercialização dos produtos figura entre os motivos desse crescimento. Onde antes existia um nicho considerado pequeno e de proximidade com o consumidor, agora há uma rede de produtores que funcionam online paralelamente ao mercado não-orgânico.

De acordo com o Instituto Qualibest – o primeiro de pesquisas online, atuante desde 2000 -, uma entre quatro pessoas preferiu, em 2016, o consumo de alimentos orgânicos. A expectativa de crescimento do setor chegaria à marca de R$ 3 bilhões, superando em meio milhão o ano de 2015, quando houve 25% de expansão do negócio.

 

Estratégias

Aplicativos como o “Mapa de Feiras Orgânicas”, desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), auxiliam os produtores na divulgação de seus produtos e os consumidores na descoberta de feiras próximas às suas residências. O app está disponível nas plataformas Android e iOS.

Mapa de Feiras Orgânicas

Mapa de Feiras Orgânicas

As lojas online com entrega delivery se tornaram uma alternativa para o setor, trazendo o agricultor familiar para dentro dos lares urbanos. Um exemplo é a Horta à porta.

Outra tendência são as páginas no facebook, que potencializaram a publicidade “boca a boca”. Além disso, eventos e feiras organizadas por grupos e comércios incentivadores ajudam os agricultores familiares na comercialização dos seus produtos.

A Oca Eventos Sustentáveis, é um exemplo. O comércio expõe todas terças-feiras, de 9h às 14h, em seu espaço físico – Oca Café, situada na rua Henrique Badaró Portugal, número 468, bairro Buritis – uma mercearia fresca, na qual produtos artesanais e alimentos orgânicos são colocados lado a lado.

Nas quintas-feiras, das 17h às 22h, o ambiente é preenchido com música, culinárias e oficinas de arte, servindo de fundo para a “Quermesse da Oca”, um movimento cultural para o convívio e interação entre consumidores e produtores.

A Diretora Executiva da Oca Eventos, Karine Rolim Santiago, comenta qual a objetivo e importância do projeto de valorização do artesão e agricultor familiar:

Karine Rolim Santiago - Foto Divulgação

Karine Rolim Santiago – Foto Divulgação

Sou de Mariana e depois de 12 anos morando em BH, no Buritis, estou muito feliz e realizada. Por meio da Oca Eventos Sustentáveis estou conseguindo fazer um trabalho afetivo que traz, em sua essência, o convivo social e familiar. A Oca me conectou às pessoas, me conectou a BH. Todos os dias me surpreendo com as possibilidades que o desenvolvimento social, econômico e ambiental nos traz.

 Karine Rolim Santiago

Diretora Executiva da Oca Eventos Sustentáveis

 

Além destes eventos promovidos pela Oca, existe no bairro Buritis outra feira de produtos orgânicos incentivada pela Secretaria Municipal Adjunta de Segurança Alimentar e  Nutricional (SMASAN).

Abaixo um quadro com os eventos periódicos que acontecem no bairro Buritis.

Feiras Orgânicas do Buritis

Feiras Orgânicas do Buritis

Algumas pedras no caminho

No Brasil, a Qualibest ouviu, em 2016, mais de 1000 consumidores de todas as classes e estados, e segundo o Diretor de Atendimento e Planejamento do Instituto, Raul Porto, mais de 90% do público considera importante o uso destes alimentos. Desses indivíduos favoráveis, 24% consomem com frequência e 60% esporadicamente.

Ainda, de acordo com Raul, 74% das pessoas entrevistadas apontaram o preço como o principal impedimento para o consumo de alimentos orgânicos.

Em pesquisa feita, em 2010, pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o mercado de produtos orgânicos foi classificado como de baixa transparência, já que é dominado por pequenos comerciantes que não possuem um longo histórico de preços tabelados.

Por causa desta instável disposição de valores, os preços no mercado ficam atrelados à localidade de venda, tipo de produto e quantidade de processos que a mecadoria enfrentou até chegar ali.

O valor gasto em transportes, embalagens específicas para diferenciar os produtos e outros processos logísticos, como a baixa escala de produção, elevam valor final unitário do alimento. Além destes fatores, existem as taxas de certificação.

De acordo com Raul Porto, a diferença de preços entre alimentos orgânicos e não-orgânicos é de 30%, em média.

Mas o que são agricultores familiares e alimentos orgânicos?

A participação de parentes no cultivo, a atividade produtiva agropecuária como a principal fonte de renda e a relação íntima dessas pessoas com suas propriedades rurais são algumas das características que as enquadram como agricultores familiares. São eles “silvicultores, aquicultores, extrativistas, pescadores, indígenas, quilombolas e assentados da reforma agrária”, de acordo com a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário.

Os alimentos produzidos por essas pessoas são denominados naturais porque provém da natureza, mas nem todos podem ser considerados orgânicos.

A diferença está no modo de cultivo, em que um não utiliza insumos químicos ou defensivos agrícolas (contentores químicos de pragas), enquanto no outro, produtos agrotóxicos e outros elementos são vias de regra na preparação e tratamento dos alimentos. Os alimentos plantados, cultivados e colhidos isentos de contaminação química são considerados orgânicos.

Para que um agricultor seja certificado como produtor de alimentos orgânicos, precisará passar por uma auditoria junto às maiores certificadoras do país (IBD, IMO, BCS e Ecocert) que irá avaliar a origem e monitorar o alimento desde a fonte produtora até a sacola do consumidor. Somente após aval, o produto deste agricultor recebe o selo “Produto Orgânico”.

Um exemplo destes agricultores familiares de alimentos orgânicos está no município de Capim Branco, considerado a “Cidade Orgânica”, na qual produtores participam da Associação dos Produtores Orgânicos de Minas Gerais e alguns atuam por meio do financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Em Belo Horizonte, não existem associações influentes para o nicho, mas produtores de alimentos orgânicos têm perseverado, como é o caso de Mônica Pletschette que está há 22 anos no negócio.

 

Uma história de vida orgânica

Segundo a agricultora familiar e agrônoma, Mônica Pletschette, a escolha pela produção de alimentos orgânicos partiu de um consenso entre ela e o marido, também um agrônomo. Eles já nutriam essa ideologia e decidiram aplicar em suas vidas.

No início, o negócio vendia produtos para restaurantes e estava fora do sistema de orgânicos, mas com a chegada dos filhos, o casal decidiu mudar. Precisaram realocar o local de cultivo no sítio em que trabalhavam e começaram a investir no setor.

Na escola, as lancheiras de seus filhos eram muito comentadas pelas outras famílias, o que gerou uma divulgação entre pais e a procura pelos seus produtos.

Tempos depois, fizeram a certificação pela Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (AbioRJ) e ingressaram no programa Feira Orgânica, da Prefeitura de Belo Horizonte, PBH. Mais tarde, tiraram novo certificado pelo Organismo de Inspeção e Certificação Ecocert.

Segundo a agrônoma, para que o certificado fosse fornecido, foram feitas análises do histórico de produção, do solo, da água usada, das regras de manejo, da produção, com enfoque para preservação e sustentabilidade, e da formalização trabalhista dos empregados. Tudo acompanhado de perto por alguns dias.

No entanto, o problema do agricultor orgânico está em arcar com todos os processos de produção, envasamento, transporte, venda e administração, o que desgasta muito o produtor, comenta Mônica.

Por isso,

Mônica Pletschtte e Gerney Filho - Foto Divulgação

Mônica Pletschtte e Gerney Filho – Foto Divulgação

 “a escolha de produzir alimentos orgânicos não é apenas financeira. Produzir orgânicos é optar por uma melhor qualidade de vida para sua família, consumidores e trabalhadores, todos coadunando para sustentabilidade e preservação do meio ambiente, se trata de uma escolha de vida”, fala a agrônoma.

Os benefícios não ficam retidos ao universo empreendedor, eles permeiam os funcionários, que agradecem por não estarem em proximidade com elementos químicos provenientes dos agrotóxicos. Além disso, o consumidor tem a garantia de obter um alimento de natural.

Atualmente, Mônica e o marido são donos da empresa Fradhe Orgânicos, produzem no Sítio do Bopi, em Sarzedo, e expõem seus produtos nos seguintes locais e horários:

 

  • Quarteirão fechado da rua Cláudio Manoel, bairro Funcionários – Terças-feiras, de 07h às 12h
  • Praça Juscelino Kubitschek, no bairro Sion – Sextas-feiras, de 07h às 12h
  • Praça Alberto Dalva Simão, bairro São Luís, Pampulha – Sábados, de 07h às 12h

 

Algumas Estatísticas

De acordo com o último Censo Agropecuário de 2006, do IBGE:

Estatísticas Censo Agropecuário de 2006, IBGE

Estatísticas Censo Agropecuário de 2006, IBGE

Entretanto, segundo o Instituto Qualibest, no Brasil, até agosto de 2016, o percentual de terras usadas para o cultivo de alimentos orgânicos ainda era 1% do total da produção agrícola.

Nossos vizinhos Argentinos aparecem no relatório do Instituto de Pesquisa de Agricultura OrgânicaFiBL (Research Institute Agriculture Organic), de 2014, como o segundo país, entre os dez primeiros, com mais terras dedicadas ao cultivo de alimentos orgânicos. A primeira posição ficou com a Austrália, que utiliza 17,2 milhões de hectares para o fim.

Os dez países com as maiores áreas de terras agrícolas orgânicas 2014

Os dez países com as maiores áreas de terras agrícolas orgânicas 2014

O Instituto demonstra, também, que a agricultura orgânica no mundo teve um aumento em torno de 397%, entre 1999 e 2014, na quantidade de terras administradas para o nicho. A Índia figura como o país com o maior número de produtores de alimentos orgânicos, 650 mil.

Crescimento das terras agrícolas orgânicas 1999-2014

Crescimento das terras agrícolas orgânicas 1999-2014

 

Nutrição

Algumas dúvidas ainda pautam o consumidor na hora de escolher pelos alimentos orgânicos, por isso, para esclarecer sobre o assunto, a presidente do Conselho Regional de Nutricionistas de Belo Horizonte, Viviane Admus Nunes Paixão, respondeu a algumas perguntas:

 

  • Existe uma diferença nutricional expressiva entre alimentos orgânicos e não-orgânicos? Há contraindicações para alimentos orgânicos? O que existe nos não-orgânicos que pode desprestigiá-los? Na esfera da nutrição, é recomendado o uso de alimentos orgânicos em detrimento dos não-orgânicos?

Os alimentos orgânicos são mais nutritivos, pois são cultivados em solos ricos e balanceados com adubos naturais, o que produz alimentos com maior valor nutricional. Não há comprovação cientifica sobre uma diferença expressiva nutricional em relação aos não-orgânicos, porém, vale ressaltar que estes alimentos evitam problemas de saúde causados pela ingestão de substâncias químicas tóxicas.

 Além disso, vários estudos científicos têm demonstrado que os agrotóxicos, também chamados de venenos, são prejudiciais ao nosso organismo; que os resíduos que permanecem nos alimentos podem provocar reações alérgicas, respiratórias, distúrbios hormonais, problemas neurológicos e até câncer. Portanto, os alimentos orgânicos são os mais indicados na esfera da nutrição.

 

Viviane Admus Nunes Paixão - Presidente do Conselho de Nutricionistas da 9ª Região

Viviane Admus Nunes Paixão – Presidente do Conselho de Nutricionistas da 9ª Região

  • Quais benefícios o consumo contínuo de alimentos orgânicos pode trazer?

Os alimentos orgânicos são mais saudáveis, pois são livres de agrotóxicos, hormônios e outros produtos químicos. Por isso, possuem:

– Menor índice de toxidade

– Mais sabor

– Maior valor nutricional

– Maior concentração de nutrientes, chegando a ser 20 vezes superior a alimentos comuns

– Responsabilidade com meio ambiente, evitando a contaminação de solo, água e vegetação

– Sistemas de responsabilidade social, principalmente na valorização da mão de obra.

 

 

  • As marmitas fitness possuem alimentos nutritivos com o intuito do emagrecimento saudável, mas isso não indica que sempre existirão ingredientes orgânicos em seu conteúdo. O que seria uma marmita fitness orgânica? Quais seriam os ingredientes básicos para as pessoas que pretendem fazer essa marmita, perderem nutrientes e continuarem com as atividades físicas?

Seria uma marmita feita com todos os alimentos orgânicos. Ou seja, nada pode conter agrotóxico. E, é claro, não podemos esquecer das quantidades e dos tipos de alimentos que irão compor esta marmita.

 No entanto, cada uma deverá ser feita de forma individualizada (pois cada indivíduo tem uma necessidade energética e nutricional diferente do outro), por isso, procure um profissional capacitado para montar o seu plano alimentar. Procure o Nutricionista! Este tipo de profissional irá adaptar a sua alimentação com o tipo da sua atividade física.

 

  • Alguma receita para sugerir aos leitores?

 Fica uma para compor a marmita:

Verduras e Legumes: metade ou mais da metade do seu prato deve ser com verduras e legumes. Tenha sempre três ou mais variedades e sempre uma opção verde escura. Faça um prato bem colorido. Quanto mais cor, maior quantidade de nutrientes. Uma dica: consuma verduras e legumes crus, cozidos e/ou assados.

Proteínas: consuma uma porção entre 80 a 120g, que você pode se basear pelo tamanho da palma da sua mão. Entram nestes grupos as carnes, aves, peixes, ovos e até o tofu. Para os vegetarianos, a escolha aqui deve ser os grãos (feijão, soja, ervilha, lentilha, grão de bico etc.).

 Carboidratos: o outro 1/4 do seu prato deve ser completado com os ingredientes com os alimentos energéticos. No caso do arroz, as massas, tubérculos – como a batata -, mandioca, inhame etc.

 Um exemplo de uma marmita bem fácil e saudável: Faça o arroz integral, tempere com bastante cheiro verde e temperinhos como manjericão e orégano, misture frango desfiado e legumes, como brócolis, couve flor e cubinhos de cenoura. Além da sua marmita ficar irresistível, fica muito saudável.

 

Como fazer sua própria hortinha orgânica

O projeto de extensão “Hortas Urbanas – Cultivando uma cidade mais saudável”, idealizado pela Bióloga e professora Juliana Batista, abrange os cursos de Engenharia Ambiental e Ciências Biológicas do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e faz uso dos espaços urbanos para cultivar hortas e plantas medicinais.

No vídeo, Juliana Batista cita quais os itens necessários para se ter uma horta orgânica caseira.

Neste vídeo, eles ensinam como fazer sua hortinha orgânica.

No próximo vídeo, a professora ensina como ter sua própria compostagem orgânica.

 

Você gostou da matéria e tem alguma sugestão de pauta?! Entre em contato preenchendo o formulário abaixo.