Por Rafael Alef

Reconhecida, através da Lei nº 10.390, como a “Capital da Moda”, Belo Horizonte é sede de um dos maiores polos do setor no Brasil. Momentos essenciais na valorização da moda nacional acontecem em BH, como o lançamento do MUMO (Museu da Moda de Belo Horizonte) em 2016, e único público no país, e o Minas Trend, evento anual que antecipa as tendências da moda brasileira e é a principal plataforma de geração de negócios do setor no Brasil.

Desde a década de 90, o Bairro Prado, localizado na Região Oeste da capital, atrai visitantes e comerciantes, que buscam conhecer a identidade mineira valorizada através de um grande incentivo à mão de obra local, que conquista compradores e imprensa especializada.

O NASCIMENTO DO POLO DA MODA

No final dos anos 80, Paulo Lopes, atual presidente da ACN Moda (Associação dos Consultores em Negócios de Moda), deu início ao trabalho que resultaria na criação da dita associação em agosto de 1993. Inicialmente como freelancer, Paulo observava uma necessidade mercadológica e diferenciada dos clientes que visitavam a capital mineira chegando de todas as partes do Brasil. Em parceria com outros membros do projeto, começaram a desenvolver um atendimento personalizado, que transformava a compra em um momento único e atendia as necessidades específicas de cada um.

De porta em porta, iniciaram contato com as fábricas da região, incentivando uma migração das confecções do Barro Preto para os bairros Prado, Calafate e adjacentes, além de mostrar a importância dessa proposta, que possuía uma visão de mercado mais abrangente, saindo do foco em vendas particulares de cada um. Naquele momento, as fábricas não atuavam com atendimento ao cliente ou showroom (espaço para exibição de produtos), sendo essa uma das primeiras metas da associação: desenvolver um novo nicho de mercado, visando os comerciantes que visitavam a capital em busca de algo inovador.

“Eu não sou estilista ou modelista, mas sempre procuro ser um detentor de informação. Ouvindo toda a necessidade de um cliente, o que ele queria e o que esperava, eu tinha a certeza que poderíamos atender. ”  – Paulo Lopes

A ACN também foi parte importante na geração de empregos nas confecções. “Sugerimos e mostramos às confeccionistas que elas não podiam criar, cortar, costurar e atender um cliente”, afirma. A proposta, iniciada há mais de 20 anos, redefiniu a atuação de profissionais da área e segue como foco da associação, que possui parcerias com hotéis e convênios com transportadoras, para receber clientes da melhor maneira, incluindo a logística da visitação.

Wanêssa Cabidelli, presidente da AMEM (Associação Mineira de Empresas de Moda), destaca que o nascimento e estabilização do polo foram beneficiados por marcas que já possuíam fabricas no bairro Prado e atingiram visibilidade nacional e internacional, como AlphorriA e Graça Ottoni, atraindo outras marcas para a região.

READAPTAÇÕES DO SETOR

Segundo dados divulgados pela CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), o setor da moda perdeu 3.262 empregos em BH, em decorrência da pandemia do novo coronavírus, sendo um dos mais atingidos na capital.

O empresário Felipe Rodrigues da Silva, proprietário da empresa de comércio varejista/atacadista têxtil, Empório dos Tecidos, localizada no bairro Prado, afirma que, durante a pandemia, sofreu grande impacto ao longo dos fechamentos do comércio, indo de baixo faturamento à redução no quadro de funcionários. “Houve uma queda brusca no faturamento, no primeiro período em que passamos fechados foi de 95%, e ao longo dos outros fechamentos caiu aproximadamente 80%”, lamenta.

Surge, então, uma demanda de readaptação para driblar os efeitos do fechamento das lojas do setor. Investindo na prática e-commerce, onde empresas passam a ter presença de vendas em campos digitais, sem a necessidade de uma compra presencial, Felipe já percebe resultados positivos. “Investimos mais de 200 mil reais no online, aprimorando essa modalidade de vendas. Hoje temos um e-commerce bem legal, que já representa 15% do faturamento do grupo, onde outros 5% vem das vendas por WhatsApp. ”.

Com adaptações nas lojas físicas, incluindo adequações de higiene e segurança, sinalizadores advertindo sobre o uso de máscara e disponibilização de álcool em gel para os colaboradores e clientes, Felipe acredita que a pandemia continua por um tempo, mas deixa uma revitalização na proposta da empresa.

“Acredito que a Covid-19 mudará o modelo de negócios da Empório para sempre. Agora que estamos presentes no mundo digital, é um caminho sem volta, e queremos ser cada vez mais relevantes neste segmento. Esperamos o retorno das pessoas nas lojas físicas, quando os indicadores [da pandemia] estiverem adequados e a cidade aberta, mas quem puder efetuar as compras online e receber em casa, evita o transporte público ou contatos desnecessários.”

Paulo Lopes, presidente da ACN, também destaca os efeitos da pandemia na presença de clientes para compra na capital. “Alguns recebiam visitas de um mesmo cliente duas ou três vezes na mesma coleção, e estão há quase um ano sem vendas específicas, pois esses estavam acostumados com o presencial”. Paulo ainda aponta que uma readaptação do setor sempre será necessária, pois muito além dos impactos do novo coronavírus, a moda se reinventa a todo momento e os clientes seguem buscando pelo novo.

MEDIDAS DE RECUPERAÇÃO ECONÔMICA

A Prefeitura de Belo Horizonte se prepara para implementar ações de apoio às plataformas e ao comércio digital, por meio da criação de um guia online para digitalização de negócios. Além de uma nova edição do MOOD (Festival de Moda de Belo Horizonte), para reforçar o posicionamento de BH como a capital da moda, a PBH também busca parcerias com o SINDILOJAS (Sindicato de Lojistas de Belo Horizonte), SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e o SENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) para a localização de espaço para instalação de um modelo de fabricação compartilhada para os setores da moda e do design.